O projeto Do Corpo Ao Movimento surgiu pela necessidade de se falar sobre a história das pessoas através de seus corpos. Tive a ideia de fazer o primeiro ensaio ao perceber como podemos ser cruéis com a não aceitação de nós mesmos, principalmente no que se refere às questões estéticas, que muitas vezes são influenciadas pelos estereótipos culturais. Então, escolhi pessoas que admiro e gostaria de mostrar a elas a profundidade de suas belezas.
No início achei que esse projeto era para falar do outro, mas vi que ele também fala muito sobre mim. Me identifico com a história de cada um e passei a aceitar melhor quem eu sou, descobrindo a verdadeira beleza que há em mim e no mundo.

Grabriella Sommer

Do Corpo Ao Movimento (Gabriella Sommer)
Quem é vc? Eu sou um espírito em constante evolução. Um ser que escolheu vir nessa existência dessa exata forma para viver experiências únicas, com o objetivo de me tornar a minha melhor versão e me reconectar ao meu verdadeiro eu, à minha natureza. Eu sou parte do todo, mas também sou o todo. Eu sou oca e vazia, em contínua (des)(re)construção. O que te fez participar do projeto? Vejo a fotografia como a arte de desnudar alguém com respeito e delicadeza. A fotografia consegue mostrar nossa verdade mais íntima, nossas vulnerabilidades e forças escondidas. Ao mesmo tempo em que faz cair todas as máscaras, nos empodera, porque ali, naquele momento único, fugaz e eterno, você não é mais ninguém além de você mesmo. O projeto do Corpo ao Movimento representa, pra mim, uma forma de capturar essa verdade em nós, porque através do olhar cheio de sensibilidade da Sharlene, nosso corpo em movimento consegue expressar todas as perguntas e respostas. O que vc sentiu ao participar? Durante as fotos um turbilhão de emoções e sensações surgiram e se confundiram à medida que o projeto começou a ganhar forma. No início a timidez e a auto crítica eram mais fortes e enviavam mensagens de resistência à minha mente, que estava no controle do corpo. Mas conforme as lembranças e sentimentos surgiam, o prazer, a diversão e a confiança começaram a se tornar mais fortes e, de repente, eu podia só dançar. A dança é a minha forma de expressar aquilo que não pode ser dito em palavras, e a partir do momento em que eu aceitei essa verdade com todo meu coração, nada mais teve importância, e eu me senti empoderada, forte e capaz, ainda que me sentisse extremamente vulnerável e aberta - nua, literalmente. Posso dizer que nunca tive grandes problemas com meu corpo, mas como (acredito que) toda mulher ocidental, a insegurança com o exterior sempre fez parte da minha vida, exceto em alguns momentos como esse, em que o meu interior era o verdadeiro modelo que estava sendo fotografado. Aquelas partes do corpo que normalmente me fariam travar ou pedir pra que fossem modificadas no computador se tornaram lindas e eu, enfim, me libertei.

Irina Lopes Guedes

Do Corpo Ao Movimento (Irina)

Quem é você?

Sou um garoto perdido, da Terra do Nunca. Aquela que não quer crescer. Não porque gosta das travessuras infantis, mas porque detesta as responsabilidades e dores dos adultos. As “adultices” insuportáveis do dia a dia, cheias de contas pra pagar, de D. R.s que não queremos ter e tantos enfrentamentos que doem. Doem justamente porque fazem crescer. Eu sou aquela que foge de tudo isso, o quanto e por quanto tempo conseguir, mas que acaba sempre, de uma forma ou de outra, pelo amor ou pela dor, enfrentando tudo aquilo que jamais quis. E apesar de nunca as ter desejado e sofrer com essas lutas, consegue, na maioria das vezes, vencê-las.

Por que decidiu participar do projeto?
Sharlene me convidou pra participar do projeto sem me contar muito sobre ele. E eu aceitei principalmente porque gosto de mostrar minhas cicatrizes. Todas elas. Reluto em mostrar aquelas que não são do corpo, me custa mais. E justamente por isso, tento encarar o desafio sempre que tenho a oportunidade. Não tenho vergonha alguma de mostrar meu corpo, gosto dele do jeito que é. E apesar de muitas vezes achar que o corpo e alma estão dissociados, mostrar as cicatrizes do corpo sempre me leva a mostrar também aquelas que carrego na alma. E acho que as fotos mostram isso, na minha postura muitas vezes encolhida, me escondendo. Não era o corpo que eu tentava esconder, eram as falhas, as incertezas, as dores e os amores. O resultado ilustra meu corpo e minha alma lindamente.

Mariana de los Santos

Do corpo ao movimento (Mariana de los Santos)

Recomendação: Leia esse texto nu/nua.
Pra começo de conversa: sou Mariana de los Santos (sim, esse é meu verdadeiro nome) e tenho 23 anos. Sempre que me deparo com essa pergunta caio num abismo. Mas eu não tenho medo de altura. É da minha natureza gostar de pensar nas questões que envolvem a vida. Hoje eu a respondo com muito mais firmeza, embora sempre hajam brechas para outras interpretações (e isso é ótimo). Uma pessoa que responde a essa pergunta da mesma maneira por toda sua vida talvez não tenha experimentado o real sentido da sua passagem por esse mundo. Acredito estarmos aqui em constante transformação, mesmo que você não se dê conta disso. “Dar-se conta”, aliás, foi o caminho e motivo pelo qual reformulei tantas e tantas vezes a resposta para a pergunta acima. É a deixa para a famosa frase Sartriana: “Não importa o que fizeram de mim, mas o que eu faço com o que fizeram de mim”. Essa frase fala sobre nossa responsabilidade pelas nossas vidas. Tudo envolve escolhas e me dei conta que não escolher também é uma escolha. O que eu faço com as dores e cicatrizes que a vida deixou até aqui? O que eu faço com as experiências que vivi? Não existe certo ou errado, existe aquilo que é possível para nós naquele determinado momento de vida. Essa reflexão me faz falar sobre as armadilhas do ego que estamos nos deixando prender, nos distanciando cada vez mais de nós mesmos: reais, concretos e completos em nossa essência. Ei, nós já somos suficientes. Nossa sociedade produz adoecimento toda vez que aponta que aquele modo de estar no mundo é errado, equivocado, diferente e estranho. Toda vez que estabelece um padrão e julga que todos dentro desse padrão são felizes, saudáveis e satisfeitos consigo mesmos. As armadilhas nos envolvem de tal forma que muitas vezes nos tornarmos a própria armadilha. Nesse mundo é cada vez mais difícil se afirmar por si próprio, cada vez mais difícil dar-se conta, cada vez mais difícil fazer algo com aquilo que fazem de nós todos os dias. Eu luto contra isso. Luto para me libertar das armadilhas, fugir do adoecimento, me afirmar diante das minhas escolhas, diante do meu corpo, da minha identidade pessoal e profissional. Luto contra qualquer tipo de opressão que queira diminuir ou anular a existência de outra pessoa. O mundo não é mais seu por que você é branco, não é mais seu por que você é homem, não é mais seu por que você é magro, não é mais seu por que você não tem deficiência, não é mais seu por que você é heterossexual, não é mais seu por que você é cisgênero, não é mais seu por que você é de classe média alta, não é mais seu por que você não é cotista…..AAHH! Nesse ponto do texto você já pode ter sido pego em uma armadilha do ego e nem se deu conta. Superficialmente, as minhas fotos mostram alguém que se encaixa em um padrão, mas, você já se perguntou se eu me sinto segura comigo? Presos na armadilha nós não nos damos a oportunidade de fazer esse questionamento. E vou te dizer uma coisa: a resposta para essa pergunta também varia. Eu luto todos os dias para me apaixonar por mim e para reconhecer a beleza que me habita. Hoje eu sinto que tenho me aproximado cada dia mais de mim e feito as pazes com a minha essência. Minha força física é um reflexo da força espiritual que carrego comigo e tenho plena consciência disso. Eu sou uma pessoa humilde, gentil e desapegada de valores materiais. Tenho atraído pessoas com as mesmas qualidades para perto e agradeço ao universo por isso. A cada vez que eu permito me conectar comigo sinto uma energia fluida irradiando do meu espírito e sinto que posso compartilhar essa energia com outras pessoas que estão tão abertas quanto eu a esse tipo de experiência. Tudo o que falei acima eu falo para mim, você não precisa concordar. Se você chegou até aqui te faço uma proposta: fuja da armadilha do julgamento. Carregue consigo apenas o que é seu e deixe para o outro aquilo que é dele. Respeite. A bagagem fica mais leve com esse desprendimento e tem mais espaço para carregarmos as coisas que nos damos conta que fazem sentido para nós. É o exercício de se despir e viver a nudez da alma. Eu sou uma pessoa que busca viver nua.

Laila Alves

Do Corpo Ao Movimento (Laila Alves)

Se alguém me perguntasse quem eu sou eu responderia que, em essência, sou uma mulher gorda, feminista e ativista da luta contra a gordofobia, o machismo, o racismo, a lgbtfobia e demais tipos de preconceitos. Tecnicamente falando, no entanto, diria que sou uma artista, designer, ilustradora e de vez em quando poeta. Mas acho que quem eu realmente sou é apenas alguém emotiva, que chora, que ri, que sente tudo muito intensamente e que, principalmente, busca através de seu trabalho trazer representatividade para mulheres gordas, que quer que o mundo entenda de uma vez por todas que ser gordo não é doença e que não, eu não preciso emagrecer, o que eu preciso é de respeito, acessibilidade e atendimento médico decente.
Foi através de um ensaio fotográfico de mulheres gordas que comecei a questionar e a trabalhar muita coisa dentro de mim que me dizia que eu não tinha valor e que era pior que as outras mulheres só por causa do número que a balança me mostrava. Aquele ensaio foi a sementinha plantada em mim e foi a partir daquele momento que comecei a ler, pesquisar e a ver vídeos sobre o assunto, além de entrar em contato com mulheres incríveis que me ensinaram muito e que me ajudaram (e ainda ajudam) na construção de quem eu sou hoje em dia. Foi graças àquelas mulheres que se despiram e me mostraram que ser gorda era apenas uma das muitas características que elas possuíam que meus olhos se abriram. Eu sei que não é nada fácil dar a cara a tapa e se expor, não só fisicamente como emocionalmente, mas estou disposta a ser agente da mudança que quero ver no mundo e não apenas espectadora. Por isso decidi dar a cara a tapa dessa vez, por mim, pelas mulheres que fizeram antes de mim e por todas as que virão.
Participar desse projeto foi algo que só consigo descrever como intenso. Muito além de apenas um ensaio fotográfico, foi uma experiência única e maravilhosa. Pude me abrir, mostrar quem eu realmente sou sem ser julgada ou ridicularizada e nossa, nunca foi tão bom ser eu! Me senti completamente despida, e não no sentido literal da palavra. Pude ser quem eu sou em toda minha intensidade, com todos meus defeitos e qualidades, com todas minhas manias e trejeitos, com todas minhas dobras e marcas, com todo meu peso, minhas estrias, minhas lágrimas, minhas risadas, com cada pedacinho que faz de mim a Laila. Foi incrível!

Marília Alves

Do corpo ao movimento (Lila)

Eu sou alguém em constante construção e reconstrução. Eu mudo muito e, por isso mesmo, preciso ser disposta para me redescobrir sempre, senão eu me perco. É difícil acompanhar as minhas mudanças – elas são constantes e intensas. O meu corpo mesmo já mudou tanto e tantas vezes. As minhas ideias, então… vish. Foi difícil aceitar essa constante transição. Foi difícil respeitá-la e me respeitar. Mas hoje estou no caminho, num caminho de auto-preservação e amor próprio. E isso é novidade pra mim. Esse caminho é uma viagem sem fim, e eu sei disso. Me olhar, me conhecer e me amar é um exercício de todo dia. Às vezes é cansativo e nem sempre eu consigo. Mas também tenho aprendido a me perdoar, a aceitar o meu tempo, a viver cada ciclo. Eu digo que estou num caminho, no meio de uma viagem sem ponto final, mas na verdade eu sinto que eu também sou esse caminho.

Fran Louise

Do Corpo Ao Movimento (Fran Louise)

Minha primeira turma oficialmente como professora universitária. Já começo com 60 alunos, todos com olhar de espanto em relação a “nova professorinha”. Depois disso tantos se destacaram naquela sala, tantos se tornaram amigos e tantos outros inspirações. Um dos exemplos é quando mostrei uma imagem na disciplina de Semiótica e ela gritou: “isso não é um cachimbo” e logo me chamou atenção com seu jeito forte de ser, mesmo as vezes tendo um sorriso levemente tímido. Fran Louise, aluna que luta pelas causas negras, feminista, LGBTQ e tantas outras. Uma mulher politizada, pelo menos é o que muitos acham (e eu acho bom!), inteligente e conhecedora das artes. Uma de suas paixões? Frida Kahlo, claro!

Letícia Castilho

Do Corpo Ao Movimento (Letícia Castilho)
Como alguém tão novo pode ter um olhar tão sensível em relação a esse mundo? Ahhhh menina, se vc soubesse como admiro o que falas e o que és. Alias, mulher (ão), é nisso que tens se transformado. E se um dia perceber o quão incrível é, espero estar perto só pra abrir um sorriso de canto e dizer: eu já sabia!

Laís Sirtoli

Do Corpo Ao Movimento (Laís Sirtoli)

Quem é você?
Sou alguém procurando deixar o mundo um pouco melhor, dentro das minhas limitações – as quais tenho dificuldade de respeitar. Tento trabalhar com o que vejo propósito e resultados positivo, sou bastante teimosa e cabeça dura quando acredito em algo. Prezo muito pela justiça em tudo que faço, sou exigente comigo, até demais pois me puno excessivamente quando falho em algo. Sou bastante observadora com tudo em volta de mim, aprendi com a vida, até como uma questão de defesa, isso me faz olhar mais para fora do que para dentro, mas permite sempre estar atenta ao que pode ser feito para ajudar as pessoas ou lugares. Valorizo demais minha independência mas tenho dificuldade de pedir ajuda, o que as vezes é bem prejudicial para mim e para o meio onde habito. Estou procurando o equilíbrio entre os extremos das características que tenho pois a que faz a qualidade é a mesma que em excesso gera o dano, mas entendo que é um processo e estou nele.

Por que fiz as fotos?

Porque é algo que eu nunca faria por ser muito travada em frente a câmera, envergonhada e com problemas de aceitação com meu corpo. Aceitei fazer para tentar dar uns passos nessa caminhada que é o amor próprio.

Como foi o processo?

Foi bastante desconfortável no início, nunca havia feito nada parecido. O processo do nu fez com que eu me sentisse mais presa que o normal. No final estava um pouco mais confortável. Foi um processo bem difícil devido às minhas travas e inseguranças mas também um desafio que me orgulhei de ter enfrentado.

Gabriela Souza

Do Corpo Ao Movimento (Gabriela Souza)

Quem é você?
Processo. O que eu sou não é estático, não cabe numa respostar linear. Este momento que estou vivenciando é de reconhecer a minha história, as minhas partes, de me permitir sentir o que há dentro de mim, sem qualquer julgamento, sem amarras.
Sentir. Reconhecer. Transformar. Ressignificar.
O que sentimentos ruins fazem comigo? O que eles estão me mostrando? Eu repreendo ou os libero, transformando-os em potencia de vida? Processo.

O que te fez participar do projeto?
Quando fui convidada a participar do projeto senti um frio na barriga e um nervosismo, “Será que eu quero ser vista?”, “O que os outros vão olhar em mim?”, “O que eu vou ver em mim?”. Questões. Angústias. Medos. Até o ponto de eu enfrentá-los, sair do racional, do ego, e me entregar, me despir.

O que você sentiu ao participar?
Eu não fazia ideia que seria tão forte. Eu cheguei apreensiva, nervosa. Mas, logo houve uma conexão que me proporcionou que eu entrasse em contato comigo mesma, de uma forma única que foi vivida naquele momento, profundo e misturou muitos sentimentos. Fui cada vez mais me entregando para o sentimento que estava no momento, mostrando com uma das ferramentas mais especial que temos: CORPO.
Corpo esse que muitas vezes queremos esconder, conter, maquiar pra caber em uma imagem que muitas vezes não é a nossa. E que dizem que temos que ter e é a que queremos mostrar. Foi intenso por tirar minhas roupas e minhas amarras e mostrar quem sou de um ângulo muito mais profundo, fora de superficialidade.

Fernanda Silva

Do corpo ao movimento (ensaio III)

Bruna Franciele

Do corpo ao movimento (ensaio IV)